Fala, Torcedor! Entrevista com Moraes, o rubro-negro que já rodou o mundo atrás do Flamengo

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Fotos: Reprodução.

O segundo capítulo da série “Fala, Torcedor!”, do iFlamengoNews, trás a republicação de uma entrevista com Moraes, um dos mais fanáticos torcedores conhecidos da história do Flamengo, que há anos acompanha o clube em todos os cantos do país e do mundo.

A entrevista foi feita há dois anos, durante a parceria do iFN com o portal “Flamengo em Foco”. Na época, a atual diretoria do Flamengo, comandada pelo presidente Eduardo Bandeira de Mello, ainda dava seus primeiros passos na Gávea, e foi um dos temas falados por Moraes. Confira!

iFN: Moraes, primeiramente se apresente para os rubro-negros, contando o que te fez se tornar este ilustre torcedor?

Sou Francisco Moraes, e minha história de Flamengo está contada no meu site, o “História de Torcedor”, ou no facebook. Não sou “ilustre torcedor” como você frisou. Sou apenas um torcedor igual a você. Igual a todos os outros do Flamengo. Todos somos iguais. Todos temos a mesma paixão, só que alguns demonstram mais dos que os outros. Agora, foi o surgimento do fenômeno Zico que me fez viajar por esse mundão levando a bandeira do Flamengo. São mais de 73 países, entre Flamengo e Seleção Brasileira. De 73 a 93 não perdi nenhum jogo oficial do Flamengo. Desde 1969 estive presente em todos os títulos do Flamengo, exceto a segunda partida da Copa do Brasil, em 2006, quando fui operado no dia do jogo. Tenho orgulho de dizer e confirmar que jamais perdi um jogo oficial do Zico. Nenhum, e ele é testemunha viva disso. E ainda levei a faixa da nossa torcida pra nove Copas do Mundo.

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Moraes e amigo em Tóquio, no Mundial de 1981.

Hoje é mole viajar por aí. Imagina viajar de avião há 30 anos. Imagina ir pro Japão, Zaire, Líbia, Iraque, Angola… Não foi fácil. Houve muito desgaste emocional, familiar, financeiro. Gastei com essa brincadeira, sem correção, mais ou menos um milhão de dólares, mas faria tudo de novo. Nossa camisa sempre esteve em todos os estádios e lugares do mundo, e isso não tem preço.

iFN: O que seria de você sem o Flamengo?

Não saberia te responder essa pergunta, até porque se não existe o Flamengo você não me perguntaria. Só te digo que o Flamengo para mim é sonho. É vida. Sem sonhos não se vive. Sem sonhos não existe vida. É o Flamengo que me mantém vivo. Não posso morrer sem comemorar novamente um título mundial. Deus sabe disso e só por isso ele ainda não me levou.

iFN: Depois de Zico, qual é o seu maior ídolo no Flamengo?

Tenho poucos ídolos na vida e um deles é o Claudio Cruz, idealizador e fundador da Raça Rubro negra. Esse cara foi quem me levou para as torcidas organizadas e sou eternamente grato. Explico: Nas décadas de 60/70, só duas pessoas viajavam por aí vendo futebol. O Braguinha, banqueiro dono do Banco Boa Vista, hoje Bradesco, e eu. Você notou a diferença? Ele era banqueiro e eu fazia banco (risos). Então, naquela época já existiam as torcidas organizadas, que eram marginalizadas, como também são hoje. Pois bem, depois que eu entrei na Raça Rubro Negra isso começou a mudar, a imprensa via um “negão” (eu) viajando nos mesmos voos, ficava nos mesmos hotéis, pagando tudo. Aliás, uma grana preta. A mídia começou a respeitar as torcidas. Infelizmente este respeito acabou. As torcidas organizadas voltaram a ser marginalizadas, aliás, por culpa delas.

Fico com muita raiva com essa generalização. “Neguinho” confunde torcidas organizadas com bandidos organizados, e são duas coisas distintas. Torcida organizada é a que faz a festa, é a que prestigia. É a que vai na boa e na ruim. Bandidos organizados usam as torcidas pra brigar, pra ganhar dinheiro, pra vender ingresso.

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Moraes e Zico, o maior ídolo dele e do Flamengo.

iFN – Qual foi e como foi sua sua primeira vez no estádio vendo o Mais Querido?

Foi um Flamengo e América, na década de 60. Fiquei louco. Ganhamos de goleada, acho que 5×1, sei lá. Eu já era fanático, mas quase não ia aos estádios. Depois disso nunca mais perdi jogos no Rio e comecei a viajar pelo Brasil nas cidades mais perto, tipo São Paulo, Belo horizonte.

iFN – E qual era o sentimento nos jogos? A Seleção te dava a mesma emoção e o sentimento de amor que o Flamengo?

Desde 1967 que acompanho a Seleção Brasileira. Fiz as eliminatórias pra Copa de 70, no México. Um inferno. Você não tem a menor ideia de como era difícil viajar pra Venezuela, Colômbia, Bolívia. Teve um jogo no Equador que levei 26 horas pra chegar. Deus do céu… Mas o objetivo principal era levar as cores do Flamengo, a camisa do Flamengo, a bandeira do Flamengo. Claro que, você estando lá fora, o sentimento patriota transcende.

E te falo: até hoje quando saio do Brasil só levo camisas do Flamengo. Na minha mala têm cinco, seis camisas oficiais, três bermudas, cuecas, meias e casacos do Flamengo. Chance zero de usar outra roupa.

iFN – O que você está achando da atual diretoria? Você apoiou desde o início? Até agora, quais foram os erros e os acertos?

Ou é agora ou nunca. Eu nunca tinha me envolvido na política no clube. Pela primeira vez postei no meu site a opção de “apoio” à esses caras e torço, e muito para dar certo, até porque, se der errado acabou o Flamengo Sempre sonhei com uma diretoria profissional no clube. Se der errado… A velharia vai voltar com o discurso “está vendo? Somos os melhores!”, e aí nunca mais teremos um Flamengo forte. E não se engane: eles (a velharia), estão vivos, torcendo desesperadamente pro Flamengo “se dar mal”, ir para a segunda divisão, pra eles terem uma pauta. “Brabo”.

Agora, não dou cheque em branco. Você acompanha meu site. Quando eles acertam, rasgo elogios. Quando erram, sento o cac***. Isso é ajudar. Discordo prontamente de vários blogs que fazem elogios loucos, sem critérios, só pra ficarem bem na fita. “Verdadeiros chapas brancas”. Isso não ajuda em nada, só atrapalha.

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Outro registro de Moraes com Zico.

iFN – Qual é a sua melhor lembrança e o seu melhor momento no Maracanã?

Todas as vitórias do Flamengo. Não guardo derrotas. Claro que tem partidas e partidas, mas quando o Flamengo ganha a alegria é tão grande que não dá pra diferenciar.

iFN – Qual sua opinião sobre o atual preço dos ingressos, o que acaba afastando torcedores símbolos do Maraca?

Já postei sobre isso várias vezes no meu site. Um escárnio. Uma vergonha. É um dos motivos de divergências com a atual gestão. Os preços e as normas de fixação são geridos e detalhados pelo Flamengo. Eles estão colocando a culpa no consórcio e tal. Cascata. O Flamengo deveria ser o último a tentar elitizar o futebol, e está sendo o primeiro. Mas eles vão aprender na marra que estão errando nessa questão, e vão ter um surto de humildade. É só esperar. Uma hora esse preço pornográfico vai baixar.

iFN – Se o Flamengo fosse uma pessoa, o que você diria pra ele?

Te amo. Você é minha vida. Nunca me deixe, porque minha vida não teria sentido sem você.

iFN – Para finalizar, deixe um recado para os leitores do iFlamengoNews e para todos os jovens torcedores do Flamengo.

Moleques, vocês são o Flamengo de amanhã. Se associem ao clube. Se mobilizem. Vocês são o presente e o futuro. Nunca se esqueçam que a paixão é a razão de viver. Nunca deixem essa paixão morrer. Passem isso para seus filhos e netos. Não morram sem deixar uma nova semente germinando, que deverá sempre e pra sempre perpetuar a nossa paixão. O Flamengo tem que ser eterno. Nunca baixem essa guarda. Nunca desistam. Não vivam sem ele.

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