Prancheta Histórica – Copa do Brasil 2006 – A goleada sobre o Galo

O iFlamengo News estreia, hoje, mais uma atração para o torcedor rubro-negro. Sempre em aniversários de jogos marcantes dos títulos importantes do Mais Querido, nós contaremos a história da partida, contextualizando os fatos da época e a análise tática da equipe. Hoje, 26 de abril, completa-se dez anos da importante vitória sobre o Atlético Mineiro no primeiro jogo das quartas de final da Copa do Brasil de 2006. Dissecamos a goleada por 4 x 1 que deu uma ótima vantagem ao Fla na ocasião.

Renato comemora o primeiro gol do jogo com o volante Junior
Renato comemora o primeiro gol do jogo com o volante Junior.

O ano de 2006 não começou da melhor forma para o Flamengo. A equipe fez uma campanha pífia no Campeonato Estadual ,com apenas duas vitórias em 11 jogos. O rendimento fez com que o Mais Querido não conseguisse vaga nas semifinais em nenhum dos dois turnos e o técnico Valdir Espinosa acabou demitido antes de completar três meses no cargo. Waldemar de Oliveira foi o escolhido, o que acabou piorando o clima com a torcida e o ambiente político. Em 2005, o clube já havia ido mal na temporada, e o ano seguinte começava da pior forma possível.

Waldemar voltava ao Flamengo três anos depois da mítica entrevista coletiva do vice de futebol à época, Eduardo Vassoura, que ao anunciar o nome do treinador foi questionado na frente de toda a imprensa por torcedores e lobistas presentes na Gávea. Três anos, depois a confiança no treinador parecia continuar pequena. Kléber Leite, vice de futebol em 2006, chegou a dizer que Émerson Leão seria um bom nome para técnico, mesmo com Waldemar já empregado.

O treinador não chegaria ao final da Copa do Brasil dirigindo o Flamengo. Já havia um acerto verbal entre Kléber e Ney Franco, que na época dirigia o emergente Ipatinga. Tanto é que Ney assumiu o rubro-negro assim que o time mineiro foi eliminado pelo próprio Flamengo nas semifinais. Fatos a parte, é importante conceder a Waldemar o mérito de ter dado o mínimo de organização a uma equipe completamente amorfa nos três primeiros meses do ano.

O Flamengo tinha uma equipe repleta de apostas. O jogador mais famoso era o centroavante Luizão, que vivia às voltas com as lesões e não atuou naquele dia. César ‘’El Tigre’’ Ramirez tinha experiência internacional, mas era outro com problemas físicos. Léo Moura e Renato Abreu estavam se destacavam na parte técnica, mas ainda não eram unanimidade. De resto, atletas talentosos oriundos da base e jogadores que se destacaram no Brasileirão de 2005 e foram contratados.

Antes de pegar o Galo nas quartas de final, o rubro-negro já havia eliminado o Guarani com uma goleada no Maracanã e derrota por 1×0 no Brinco de Ouro, o ABC de Natal com duas vitórias, uma delas por 4×0 no Rio de Janeiro, e também o ASA de Arapiraca, com uma vitória suada por 2×1 em casa. Na altura da partida contra o Atlético, o Flamengo já havia contratado três jogadores do Ipatinga. O volante Goeber, o atacante Diego Silva e o meia Walter Minhoca seriam os primeiros integrantes da ‘’República do Pão de Queijo’’ implementada por Ney Franco na Gávea. Porém, como o trio já tinha entrado em campo com a camisa do Ipatinga naquela Copa do Brasil, não poderia jogar em outro clube na competição.

Estrutura Tática

O Flamengo entrou em campo naquela noite montado no 4-3-1-2. Renato Abreu era o elo de ligação entre o meio e o ataque, mas como não tinha muitas características de meia central, buscava bastante um dos lados do campo. César Ramirez e Vinícius Pacheco formaram a dupla de ataque e sempre se revezavam entre a região central e uma das pontas. Na prática, o Flamengo alinhava os três jogadores na linha ofensiva e deixava a articulação das jogadas a cargo dos laterais – Juan e Léo Moura – e também de Junior e Jonatas, volantes de ótimo passe.

Time atuava no 4-3-1-2, mas Renato Augusto buscava muito os lados do campo. Era vistou muito pouco na região central. Ataque tinha muitas trocas de posição
Time atuava no 4-3-1-2, mas Renato Augusto buscava muito os lados do campo. Era pouco visto na região central. O ataque tinha muitas trocas de posição.

Contratado do Nova Iguaçu na época, o jovem volante Léo era o responsável por liberar Juan e Léo Moura. Ele funcionava como um terceiro zagueiro quando o Flamengo era atacado e fazia com que a dupla de laterais não tivesse obrigação de fechar a última linha de defesa. Com isso, a bola se apresentava para a transição ofensiva, mas pouco passava do meio-campo. Este Flamengo ainda não tinha em Juan e Léo Moura os ‘’laterais armadores’’ dos times de 2007 e 2008, mas Waldemar já havia detectado que ambos poderiam oferecer muito ofensivamente.

Léo no flagra como terceiro zagueiro, na mesma linha de Renato Silva e Angelim. Percebam o círculo amarelo: Jonatas demorava muito para recompor e o Flamengo sofreu no primeiro tempo
Léo como terceiro zagueiro, na mesma linha de Renato Silva e Angelim. Jonatas demorava muito para recompor e o Flamengo sofreu no primeiro tempo.
Aqui o Flamengo tem a bola e Léo se posiciona como volante central. Jogador, porém, pouco passava do meio-campo e liberava apoio de Juan e Léo Moura simultâneamente
Flamengo tem a bola e Léo se posiciona como volante central. Porém, raramente passava do meio-campo, pois liberava apoio de Juan e Léo Moura simultaneamente.
Léo Moura entrando na área e finalizando. Ele e Juan já saiam bastante do lado do campo e atacavam a área adversária ou buscavam as jogadas pelo meio.
Léo Moura entrando na área e finalizando. Ele e Juan já saiam bastante do lado do campo e atacavam a área adversária ou buscavam as jogadas pelo meio.

O adversário

Assim como o Flamengo, o Atlético/MG não vivia um bom momento, mas a situação do Galo era dramática. O clube acabara de ser rebaixado para a Série B do Brasileiro e foi eliminado pelo Cruzeiro na semifinal do Campeonato Mineiro. Para completar, vinha passando de fase aos trancos e barrancos na Copa do Brasil.

A equipe treinada por Lori Sandri atuava no 3-4-1-2 e apostava demais na movimentação de Danilinho . Naquele jogo, apresentou pouca chegada dos alas ao ataque e volantes tímidos ofensivamente. O time tinha três jogadores que vestiriam a camisa do Flamengo. Um deles, Márcio Araújo, ainda faz parte do elenco e, na época, com 22anos, jogou como ala direito. Marcinho, que foi muito bem no Fla em 2008, era o meia. No gol estava o goleiro Bruno.

Time do Atlético montado por Lori Sandri. Equipe jovem
Time do Atlético montado por Lori Sandri. Equipe jovem.

O Jogo

Disputada em um Maracanã em reformas para o Pan Americano do ano seguinte, a partida contou com presença de público um pouco abaixo das expectativas, mas com muito apoio da torcida rubro-negra. O equilibro de forças foi uma constante dos primeiros minutos. O time mineiro não se encolheu no seu campo de defesa. Saiu para o jogo e incomodou bastante o Flamengo com a movimentação de Danilinho. Faltava mais companhia ao rápido atacante e infiltração dos alas e volantes para possibilitar a criação de mais chances.

O Flamengo saía de forma lenta e desorganizada.  Demorou 12 minutos para aproveitar o modelo de marcação do adversário. O time mineiro marcava com encaixes individuais, o que proporcionaria espaços caso o rubro-negro conseguisse articular minimamente as jogadas. Ramirez foi ao fundo e cruzou para Renato Abreu finalizar no canto de Bruno e abrir o placar.

Aqui a origem do primeiro gol. Renato participava ativamente no último terço do campo e sempre buscava uma das pontas. Neste lance vai se infiltrar no segundo pau e receber o cruzamento
Origem do primeiro gol: Renato participava ativamente no último terço do campo e sempre buscava uma das pontas. Neste lance, se infiltrou no segundo pau e recebeu o cruzamento.

A sequência da primeira etapa apresentou domínio do Atlético, que teve duas boas chances de empatar. Na primeira, Danilinho serviu Marinho, que ganhou de Renato Silva na corrida, mas chutou em cima de Diego. Aos 28 minutos, quem não deixou que o empate do Galo se concretizasse foi o trio de arbitragem. Danilinho marcou em posição legal, mas o árbitro Leonardo Gaciba anulou.

O Flamengo chegaria com perigo novamente em apenas mais uma oportunidade no primeiro tempo. Renato Abreu chutou forte de fora da área e a bola passou perto da meta de Bruno. Seguia a dificuldade de criatividade e os espaços na marcação. Jonatas demorava muito para recompor e deixava muito espaço para somente Junior fechar o setor, por onde o Galo ganhou o meio-campo.

No intervalo, Waldemar sacou o apático ‘’El Tigre’’ para a entrada de Obina. O baiano aumentou a movimentação do ataque e mostrou sua importância antes do primeiro minuto: serviu Juan pela esquerda e o lateral cruzou na medida para Renato Abreu fazer o seu segundo no jogo. O gol representou perfeitamente o que a movimentação rubro-negra poderia fazer com o sistema de marcação citado acima e adotado pelo Galo.

No embalo do apoio da torcida e aproveitando a apatia momentânea do adversário, o terceiro gol aconteceu quatro minutos depois. Jonatas puxou contra-ataque pelo meio da defesa e chutou forte para boa defesa de Bruno. No rebote ,Obina finalizou duas vezes para marcar. O lance acabou prejudicando o Atlético, pois a bola saiu pela linha de fundo depois do segundo rebote do goleiro e Gaciba não marcou.

Aqui a origem do segundo gol e o exemplo dos encaixes individuais (em vermelho) do Galo. Reparem em amarelo Renato Abreu fugindo da marcação de Rafael Miranda. Na sequência da jogada, Obina vai lançar Juan e Marcos(fora da imagem), o homem da sobra, sai na cobertura enquanto Renato Abreu infiltra na área para receber de Juan
Origem do segundo gol e o exemplo dos encaixes individuais (em vermelho) do Galo. Renato Abreu foge da marcação de Rafael Miranda. Na sequência da jogada, Obina vai lançar Juan. Marcos (fora da imagem), o homem da sobra, sai na cobertura enquanto Renato Abreu infiltra na área para receber o cruzamento de Juan e marcar.

O Atlético não se entregou e conseguiu diminuir. Marcio Araújo fez boa jogada em cima de Juan e cruzou para a área. Diego afastou, mas a bola bateu na perna de Marcio e encontrou a cabeça de Marinho no segundo pau. Depois do gol, os visitantes tentaram pressionar, mas a esta altura o Flamengo já havia resolvido seu problema defensivo. Waldemar postou Renato Abreu mais atrás e liberou Jônatas para atuar como meia.

O Flamengo passou a assustar nos contra-ataques e teve algumas chances para ampliar. Após Léo Moura desperdiçar ótima oportunidade e Obina chutar por cima, Vinícius Pacheco aplicou um lindo drible em Vicente e cruzou na medida para Jônatas fazer o quarto. Daí em diante, O rubro-negro relaxou e ainda viu o Galo perder duas chances dentro da área, uma com Danilinho e outra com Ramon. Fim de papo e ótima vantagem criada para carimbar a classificação na semana seguinte, em Belo Horizonte.

FICHA TÉCNICA – FLAMENGO 4 X 1 ATLÉTICO/MG:
Copa do Brasil – Jogo de ida das Quartas de Final
Data: 26 de abril de 2006
Estádio: Maracanã, no Rio de Janeiro. Público: 27.703 pagantes
Árbitro: Leonardo Gaciba.

Escalações:
FLAMENGO – Diego; Leonardo Moura, Renato Silva (Rodrigo Arroz), Ronaldo Angelim e Juan; Leo Oliveira, Junior (Diego Souza), Jônatas e Renato Abreu; Ramirez (Obina) e Vinicius Pacheco. Tec: Waldemar Oliveira.
ATLÉTICO/MG – Bruno; Daniel Marques, Marcos e Leandro Castán (Ramon’); Marcio Araújo, Rafael Miranda, Renan (Zé Antônio), Marcinho e Vicente; Danilinho e Marinho. Tec: Lori Sandri.

Gols:
FLAMENGO – Renato Abreu, aos 12′ do primeiro tempo e 1′ do segundo tempo; Obina, aos 4′ e Jônatas aos 31′ do segundo tempo.
ATLÉTICO/MG – Marinho, aos 12′ do segundo tempo.

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